Home
Introdução
Artigos
Avivamento
Curiosidades
Estudos Bíblicos
Edificação
Igreja Pedra Viva
Jóias Raras
Minhas Reflexões
Ministério Cristão
Novas de Alegria
Seleções Notáveis
Fale Comigo
Recomende
teste
Ministério Cristão
Enviar para um amigo | Versão para impressão | Voltar |  Recomendar
Igreja de Cristo ou igreja de homens?
Pedro Liasch Filho

No começo da década de 1980, dois jovens, oriundos da igreja Cristo Já Volta, autodenominados pastores, decidiram fundar uma igreja. Sem nenhuma experiência, aconselharam-se com um ex-pastor, um ministro veterano a quem chamavam Cajueiro. Afastado da Igreja Cruzada do Calvário, ele tinha grande experiência em fundação de igrejas.

Cajueiro foi logo perguntando: “Vocês querem criar uma igreja para servir a Deus ou uma igreja para se servirem de Deus?”. Meio confusos, indagando entre si o sentido daquelas expressões, pediram maiores explicações ao ex-pastor, que, em resposta, sem nenhum constrangimento, declarou não entender quase nada de “servir a Deus”, mas que “servir-se de Deusera a sua especialidade. E de pronto começou a dar-lhes uma verdadeira aula de como se servir de Deus:

Primeira lição. Visando prestar serviços religiosos aos fiéis, que na verdade serão seus clientes, a igreja deve organizar-se para melhor servi-los e agradá-los. Para aumentar o número de clientes, usem todos os recursos possíveis para fazer das reuniões um verdadeiro e atraente espetáculo, capaz de emocionar a platéia e cativá-la cada vez mais. Aumentando-lhes o interesse pelos cultos e pelos serviços da igreja, tornarão viável a manutenção financeira do empreendimento.

Segunda lição. Não estabeleçam atividades próprias de uma igreja comum, como assistência social, projetos evangelísticos ou missionários, que só farão gerar despesas. Pelo contrário, tentem por todos os meios levantar recursos para aumentar o patrimônio da igreja e promover a sua influência político-social, demonstrando competência financeira.

Terceira lição. Nunca façam oposição ao sistema do mundo nem às vigentes estruturas religiosas. Mantenham os crentes na ignorância, e o sucesso será garantido, uma vez que poderão livremente explorar-lhes a boa-fé. Enquanto os pastores que servem a Deus incentivam os crentes à leitura da Bíblia, para a busca da verdade e edificação espiritual, vocês irão apenas estimular-lhes as emoções. Com isso, poderão interpretar as Escrituras e conduzir os clientes como bem quiserem, pois o coração deles estará entorpecido.

Quarta lição. Enquanto os pastores que servem a Deus procuram manter comunhão com outros rebanhos, visando à expansão do Reino, vocês irão se manter afastados de outras igrejas, com as quais farão intransigente concorrência para garantir o próprio crescimento. Se a igreja que serve a Deus apresenta os recursos materiais como promessas divinas para enriquecer o ser humano, vocês exaltarão o ser humano, visando usá-lo para enriquecer vocês.

Quinta lição. Se, por meio do Espírito Santo, a igreja que serve a Deus procura convencer as pessoas a se converterem, dando-lhes nova vida, vocês, ao contrário, usarão todos os subterfúgios para produzir fortes impressões nos clientes. Estas, porém, serão renovadas de tempos em tempos, a fim de que possam mantê-los presos ao sistema.

Sexta lição. Os pastores que servem a Deus e são fiéis aos princípios do cristianismo promovem a vitalidade espiritual do rebanho, primando pela qualidade, pois visam conduzir os crentes para o céu. Vocês, porém, se quiserem obter sucesso, devem manter viva a chama do interesse dos clientes pela prosperidade, pelos bens materiais e pela solução dos problemas pessoais: saúde, vida sentimental, finanças. Sendo o principal propósito a quantidade, e não a qualidade, adotem o proselitismo. Deixem de lado a visão espiritual e conduzam o povo à ilusão da felicidade imediata.

Embora espantados pela inusitada aula, por incrível que pareça, foi essa a direção que os dois jovens decidiram seguir. Depois de alguns anos, um deles pisou na bola da imoralidade e teve de abandonar o projeto. O outro, porém, prosseguiu, e hoje é o líder de uma das maiores igrejas-empresas do país.

Esse é o motivo de vermos tanta quantidade e tão pouca qualidade no âmbito das igrejas brasileiras. Apesar dos números por vezes espantosos, podemos dizer que os resultados das colheitas espirituais em nosso país são irrisórios.

Não só o índice de fracasso dos pastores da Ásia, estimado em 71,42%, não parece ser nem um pouco diferente do quadro dos ministros de hoje, como este proporcionalmente com certeza é maior. Segundo levantamentos realizados por entidades missionárias, existem só no Brasil mais de 150 mil templos e casas de cultos evangélicos, e cada um deles tem pelo menos um pastor, razão pela qual, esbarramos com pastores de todo naipe em cada esquina.

Quantidade, porém, não basta. Se tivéssemos semeadores idôneos na mesma proporção em que os ministros proliferam hoje em dia, a evangelização do mundo, com a colheita final, já teria sido concluída, e os crentes salvos já teriam sido arrebatados por Cristo e estariam no céu há muito tempo.

De fato, a expectativa terrível para a igreja de Cristo que existiu no passado, segundo a qual o pastor podia mudar o rumo de sua igreja e tanto conduzi-la ao céu quanto levá-la para o inferno, prevalece nos dias de hoje. Observe-se que do total dos pastores representados pelos sete das cartas do Apocalipse, apenas 28,58% eram fiéis e conduziam bem o seu rebanho. Já os outros 71,42%, ministros desobedientes à Palavra, deixaram a igreja fracassar vergonhosamente.

Expressiva parcela dos ministros de hoje, os que se tornaram semeadores inconvenientes, de igual modo estão praticando a mais vergonhosa traição, pois, rejeitando a Cristo ao preço da popularidade, da influência político-social e dos bens materiais, se converteram em ministros mercenários, transformando as suas igrejas do modelo simplesmente evangélico para o estilo empresarial, cuja finalidade passou a ser exclusivamente lucrativa.

Tais pastores fazem de tudo para agradar o povo, com o objetivo claro e único de encher de gente os templos e arrecadar cada vez mais. Os detentores absolutos do poder da igreja local detêm também o controle absoluto da arrecadação. Já os que pertencem a organizações maiores são classificados de acordo com a sua capacidade de levantar dinheiro. Como incentivo, recebem até porcentagem da arrecadação. Nenhum deles, porém, se importa com as almas que se perdem no pecado.

O fato é que, torcendo as Escrituras para a própria perdição, como bem adverte o apóstolo Pedro (2Pe 3.16), e ainda se aproveitando da boa-fé dos fiéis incautos, necessitados e oprimidos, estão fazendo despudoradamente o jogo da exploração da fraqueza humana, uma vez que, diante das necessidades físicas e materiais do povo, fazem-lhe toda sorte de promessas de provisões temporais, em troca das ofertas, visando apenas ao lucro. Na verdade, estão iludindo as almas, que, no fundo, subconscientemente, querem a paz com Deus e a salvação para a vida eterna.

Grande parte dos ministros de hoje, ignorando o fato de que uma coisa é igreja de Cristo e outra a igreja do homem, contaminados com a praga do amor ao dinheiro e desviados da verdade cristocêntrica, fundaram ou transformaram as suas igrejas em igrejas-empresas.

A igreja-empresa, conduzida por ministros infiéis, que trilham o caminho do mundanismo, vive separada de Deus. A igreja de Cristo, ao contrário, conduzida por ministros honrados e orientada para viver separada do pecado, anda pelo caminho da santidade. Se, por exemplo, a igreja-empresa não se importa com os males do sexualismo e é conivente com a subversão da sexualidade, em total desacordo com a Palavra de Deus, a igreja de Cristo assume e respeita a sexualidade como dom provido e aprovado por Deus para o bem das criaturas, adotando-a, porém, de acordo com os padrões da Bíblia.

Os ministros da igreja-empresa, desviados dos princípios cristãos, preocupados tão-somente com o dinheiro e obcecados em arrecadar cada vez mais, transformaram-se em líderes religiosos mercenários. Eles não servem a Deus a favor dos homens. Servem-se de Deus para enganar os homens. Para eles, o cristianismo é somente um meio de vida.

Já os ministros da igreja de Cristo, fiéis à sua vocação para pregar as boas novas de que Cristo veio ao mundo para salvar os pecadores, preocupam-se com as pessoas. Dedicados à obra de Deus e ao Reino, para promover o bem do povo, são líderes cristãos humanitários, para os quais o cristianismo não é meio de vida, mas um excelente modo de viver.

Os pastores da igreja-empresa, procurando manter viva a chama do interesse do povo pela prosperidade, pelos bens materiais e pela solução dos problemas pessoais, de saúde, emocionais e financeiros e adotando o proselitismo, visam prioritariamente à quantidade. Destituídos de visão espiritual, conduzem o rebanho por um caminho efêmero, tendo em vista apenas a transitória felicidade.

Observe-se que os apelos veementes que esses pastores fazem do púlpito, pelo rádio e pela televisão são específicos: “Você está desempregado? O seu negócio está falindo? Está cheio de dívidas? Percebe que está perdendo tudo? Você tem brigas em casa? Tem problemas de vícios em família? Está enfrentando separação conjugal? Tem desmaios, dores de cabeça, dores no corpo? Tem depressão, angústia, nervosismo, insônia? Tem medo, vive em pânico? Tem desejo ou idéias de suicídio? Tem visão de vultos? Escuta vozes? — Deus irá libertá-lo. Venha logo buscar essa bênção!”.

No entanto, os ministros da igreja de Cristo, permanecendo fiéis aos princípios do cristianismo e promovendo a vitalidade espiritual do rebanho, primam pela qualidade. O objetivo deles é conduzir os crentes para além do horizonte sem fim.

Os ministros autênticos, os que ainda nos restam — poucos, é verdade —, estão socorrendo os fracos e quebrantados de espírito (pobres ou ricos), apresentando-lhes o evangelho de Cristo, do qual não se envergonham, pois é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê (Rm 1.16). Estes, desinteressadamente, levam o povo sofrido a buscar primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, porquanto o Senhor promete que as demais coisas — por exemplo, os bens materiais e a solução dos problemas de cada dia — serão acrescentadas (Mt 6.33).

Os semeadores verdadeiros, os que não são mercenários e por isso nada têm de que se envergonhar, ao mesmo tempo, são inteiramente dedicados à lavoura do Reino. Desses, Paulo foi o maior exemplo, pois, mesmo tendo o direito de receber proventos pastorais, rejeitou essa ajuda para não ser pesado financeiramente às igrejas. E, fabricando e vendendo tendas, sustentou a si mesmo e aos companheiros.

As igrejas-empresa são antítipos modernos da igreja de Laodicéia, cujo estilo foi adotado inicialmente por considerável parcela de pastores americanos e depois exportado para outros países, chegando ao Brasil há cerca de trinta e cinco anos. Alguns dos pastores que o adotaram, infelizmente, fizeram escola, e foram seguidos por outros ministros, que se reproduzem até os dias de hoje, e proliferam por todo o país.

Com a multiplicação espantosa das igrejas-empresa, infelizmente, vulgarizou-se também no Brasil a maldição de Laodicéia, causando grandes estragos na lavoura do Reino. O fato é que construindo impérios de comunicação, criando e ampliando redes de rádio e televisão, visando explorar a boa fé do povo, na verdade, os líderes dessas igrejas estão afrontando o Reino de Deus.

Em entrevista concedida à revista Enfoque Gospel (set./2003), David Wilkerson, um dos mais conceituados pastores evangélicos dos Estados Unidos, renomado autor de vários livros, lidos por 50 milhões de pessoas em 150 países, faz duras críticas ao estado em que as igrejas se encontram nos dias de hoje. Disse que a tragédia das igrejas brasileiras foi a importação do modelo americano, estilo eclesiástico que não sente compaixão pelos pobres. Ele observa que, americanizadas, as nossas igrejas, em vez de buscar o crescimento espiritual, buscam apenas crescimento numérico.

Afirmando que o Brasil precisa ouvir a Palavra de Deus, Wilkerson acrescenta que os pastores televisivos das igrejas de hoje, tanto os daqui quanto os dos Estados Unidos, apresentam Jesus como a figura do Papai Noel, que só distribui bênçãos materiais. No entanto, faz uma profecia segundo a qual, Deus irá vomitar e substituir esse modelo de igreja.

Além disso, a lavoura do Reino em nosso país está infiltrada de semeadores infiéis. Temos ministros inidôneos, egocêntricos, mercenários, que se acham donos da obra, dedicados mais a si mesmos que ao Reino. Temos obreiros que, ostentando o título de semeador, não semeiam e, como se não bastasse, são negligentes e infiéis à missão evangélica, à doutrina de Cristo e ao próprio Cristo.

Outros há que, pregando com a voz, “despregam” com a vida. Há também ministros insubmissos ao ministério, promotores de divisões que não se importam em rasgar o corpo de Cristo. Há os presunçosos da própria função, desonestos nos negócios particulares, adúlteros e mundanos. O pior da história é que, mesmo vivendo no pecado, tendo já perdido a sua autoridade ministerial e moral, continuam no exercício de suas funções. Estão caídos, porém, vivendo como se estivessem em pé. Agem como lobos em pele de ovelha, causando escândalos e destruindo a obra de Deus.

Parafraseando o célebre texto das nulidades, de Rui Barbosa, os pastores que, resistindo às forças do mal, permanecem fiéis a Cristo poderiam declarar — como de fato declarado têm com todas as letras, sem pudor e sem receio de ofensas — que, de tanto ver triunfar as nulidades do ministério cristão, de tanto ver prosperar a sua desonra, de tanto ver crescer as suas injustiças, de tanto ver agigantarem-se nas mãos deles os poderes temporais, chegam a desanimar da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de se chamarem pastores evangélicos.

Longe, porém, de nos fazer juízes dos ministros de Cristo, apenas revelando biblicamente o perfil dos pastores descomedidos, procuremos ressaltar as suas características básicas, a fim de que pelos crentes sejam facilmente reconhecidos. Contudo, ainda temos ministros fiéis os quais, não se contaminando com o mundo e resistindo às tentações mundanas, carnais ou financeiras, preservam a si mesmos e não permitem que a igreja se conduza pelo mundanismo ou pela sordidez do estilo empresarial.

Enviar para um amigo | Versão para impressão | Voltar |  Recomendar